domingo, 10 de fevereiro de 2008

Traição

Saiu do elevador vagarosamente. A luz do corredor, enfraquecida, tornava o momento do regresso ainda mais melancólico. Dirigiu-se à última porta da direita. Parou. Olhava a maçaneta redonda, cor de ouro velho. Lembrou-se de um tempo. Que tempo era aquele? Algo o chamou de volta à realidade. Precisava entrar, não poderia hesitar mais. Já estava ficando velho, a cabeça um pouco calva e grisalha, as mãos enrrugadas denunciavam os anos que carregava. Posicionou a chave na fechadura, pousou sua mão na maçaneta e girou-a. Levantou seus olhos procurando-a. Poderia estar à sua espera, ou não.
Em sua diagonal, ela estava deitada no sofá cor de rubi. A cabeça pousada sobre o braço, a luz da televisão iluminava seu rosto e colo. Fechou a porta sem virar para trás. Apenas a batida anunciava sua chegada. Jogou a chave na mesinha, deu três passos para frente e parou. Observou-a. Será que sentia sua falta?
Ambos ficaram em silêncio durante alguns minutos. Ele, ali, de pé, pensando nos momentos em que fôra feliz naquela casa. Ela, pensando no que ele iria dizer.
"Foi um erro que passou em nossas vidas" - disse ele. Falou de maneira seca, com a voz baixa, quase gaguejando.
"Voltei para te pedir perdão. Percebi que minha vida só é vida do teu lado. Sou uma anta, mesmo. Trair uma mulher como você..."
Trair. Aquela palavra saiu de sua boca, bateu na parede, escorregou no sofá e entrou no ouvido dela.
Traui-a. Merecia perdão?
"O que fiz certamente foi errado. Mas sinto sua falta. Queria recomeçar nossa relação."
Ela apagou a televisão. Levantou-se vagarosamente, o que fez a colcha do sofá cair no chão.
O coração dele batia forte. O que aconteceria em seguida? Expulsaria-o de casa? Daria uma nova chance? Não a reconhecia mais. Depois de sete anos de casamento, ele a traiu. Traição. Traiu a confiança. Traiu os votos de amor, as tardes juntos, traiu todos os momentos que vivenciaram até ali.
Ela pôs a mão em seu ombro, aproximou-se de seu ouvido e disse, lentamente: "Cuidado".
"Cuidado?", pensou ele.
E logo o amante dela apunhalou-o pelas costas.
Caiu no chão.
Agonizou.
Morreu.
O que poderia ter dado certo naquele casamento?

Um comentário:

Daniela Patrício disse...

Impactante... nossa! levei um susto nas últimas frases!!
Bom, mto bom!