quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Eu e minha incoerência

Eu e minha incoerência frequentemente nos encontramos e nos colocamos a tomar o chá das 5 perto da hora do almoço. Nos sentamos na mesa, apoiamos os pés nas cadeiras e sonhamos com grandes e doloridas saudades de coisas que nunca tivemos.
Ontem mesmo estávamos conversando, quando disse a ela que sentia uma incontrolável saudade do meu porquinho-da-Índia que eu ganhei quando tinha 6 anos.
Disse também que muita falta me fazia não visitar Itabira.
Confessei-lhe que não sentia tanta falta da tuberculose que me acompanhou até os 80 e tantos anos de idade, e que a ideia de morrer de cirrose e casar por 9 vezes também não me fazia grande falta.
A minha incoerência, sorridente, continuava a ouvir-me e a tomar seu chá das 5.
Somente um fato naquela tarde nos roubou a paz...
Disse a ela que não sentia saudade de um certo "amor" que, teoricamente, havia recebido há pouco tempo de um certo alguém. Não me fazia falta este "amor" porque, na realidade, eu nunca o tive.
Nos entreolhamos, eu e minha incoerência, e ela soube que aquele era o momento de partir.
Pegou seu vaso de flores transparentes, prendeu nas costas e saiu pela porta do fogão.
Havia chegado a hora em que eu não tinha mais incoerência.
Eu estava embriagada de plena lucidez...

Um comentário:

Fernando disse...

Qualquer dia desses volto do inacreditável.

Não li o texto, fico devendo.

beijo